Novum

Junho — 2013

Feines aus Portugal

|PT|
Embalagem ilustrativa

A Jose Gourmet é uma pequena marca portuguesa comprometida com a alta qualidade do produto e produção sustentável. Para tal empreendimento, a importância do design de embalagens é óbvia. Afinal, o olho se alimenta do que vê – e então passa a mensagem!

»Nós não somos produtores, somos seletores!« Assim funciona uma das regras básicas do José Gourmet, uma pequena marca de alimentos lançada há três anos. Este princípio consagra a prática da empresa de obter todas as suas mercadorias de pequenos produtores, que também podem garantir sua qualidade. »Temos uma relação de confiança com nossos fornecedores. que são justamente orgulhosos de seus produtos. Nós pagamos no prego e não discutimos sobre o preço. E então procuramos que nossos clientes façam o mesmo, “aprendemos com José Gourmet.

Foi com o mesmo espírito de confiança, logicamente, que a tarefa de projetar a embalagem foi colocada nas mãos de um designer apaixonadamente comprometido. Luis Mendonça não tinha muita experiência anterior em embalagem, mas foi precisamente isso que o levou a assumir essa etiqueta não convencional. »Procuramos alguém que tivesse excelente habilidade como designer, mas que não fosse especialista em embalagens – para que pudéssemos obter uma solução onestop atraente e simples. Queremos motivar as pessoas a experimentarem nossos produtos, a degustar nossos produtos – e não simplesmente sermos seduzidos pela própria embalagem. «E como a empresa adquiriu seu nome -» José Gourmet «?» O nome José (Joseph) é muito longo. marca estabelecida de fato – pense em José de Nazaré! E entre os mortais comuns existem muitos “Josés” fabulosos, incluindo dois dos melhores que Portugal pode oferecer: José Mourinho e José Saramago! “E isso indica outra das regras básicas que tornam esta empresa o que é – um equilíbrio saudável de trabalho e prazer…

 

|Entrevista Completa|

Tipos de trabalho/área de trabalho preferido (porquê?)

Aprecio projetos com muitos constrangimentos. Trabalhos que se relacionem com problemas concretos ou com situações onde as necessidades são criadas a partir de estímulos económicos, estéticos ou outros. Trabalhos que envolvam outros profissionais. Gosto de trabalhar com arquitetos, por exemplo. Com profissionais ligados a outras áreas como a museologia ou as ciências naturais.

No entanto, mais do que isolar um determinado tipo de trabalho, agrada-me passar por diferentes circunstâncias, pela diversidade de lugares, de pessoas, das ideias, de materiais e técnicas a envolver. Agrada-me o diálogo, a necessidade ou possibilidade de experimentar, de ultrapassar limites, de arriscar, de aprender.

Não me agrada a segurança como garantia de partida. A segurança é uma conquista. A experiência – não como rotina, recalcamento ou repetição, mas justamente como multiplicação e soma de experiências – vai construindo as certezas que permitem improvisar, testar. Colecionar um grande número de dados e capitalizar experiência. Só a utilização do automóvel, a realização de viagens justifica um seguro contra todos os riscos.

Habituei-me a trabalhar a curto prazo. Gosto de sentir a adrenalina como combustível do trabalho. Este combustível tem um preço, mas é estimulante somar aos constrangimentos da encomenda – quando ela não o contempla de forma acentuada – o constrangimento do tempo. Falo destes aspetos porque, estando eles presentes em todos os trabalhos que faço, me dão a sensação de que, mais do que preferir um determinado tipo de trabalho, me sinto confortável com o contraste entre eles, com as exigências específicas de cada um deles.

Em concreto e entre os trabalhos que produzo com mais frequência, tanto me realizo na elaboração de uma montra de uma loja, onde posso abrir o leque de opções concetuais e materiais, onde posso funcionar com pressupostos da arquitetura, das artes plásticas, do design ou da cenografia, como me satisfaço com a contenção do projeto de um livro. Tanto sinto necessidade de trabalhar com ruído e interferência, como sozinho e em silêncio.

Clientes e áreas preferidas (porquê?)

Aprecio clientes com convicções, com opinião. Clientes exigentes independentemente do seu caráter mais utópico ou mais pragmático. Clientes que seja preciso conquistar e que estejam disponíveis para serem conquistados. Espero dos clientes o que espero dos amigos. Só a força das relações cria condições para conhecer, discutir, apreciar, atingir.

Também se podem fazer coisas com maior distanciamento mas este distanciamento, não beneficia, na minha opinião, as condições de desenvolvimento de um projeto nem potencia as melhores soluções.

Provavelmente, à distância não se chegam a pôr a descoberto ou a equacionar possibilidades, formas de manobrar ou de adequar soluções. Um projeto é como um organismo. E o seu caráter orgânico implica naturalmente um habitat: É preciso criar intimidade com este habitat para intervir no uso do maior número de peças do jogo, para jogar da melhor maneira.

Na edição de livros, onde tenho, para além da função de ilustração e designer o papel de editor, vejo-me como cliente de mim próprio. Com isto quero dizer que gosto de exercer o papel de cliente, de me impor obrigações. Só impondo obrigações a nós próprios podemos, no meu entender, pensar e realizar com liberdade.

Entendo a liberdade como uma construção responsável, consequente. Só a partir de limitações podemos exceder limites responsavelmente e com verdadeiro uso da criatividade. Criar nada tem de abstrato. Os clientes são pessoas concretas com problemas concretos. Se a sua sensibilidade para sonhar for idêntica à capacidade de manter os pés na terra, tanto melhor.

Estilo/técnica de trabalho preferida

Sinto que as referências mais próximas da técnica que uso têm menos importância no meu trabalho – embora me interessem conhecer – do que as notas que tiro, as fotografias que faço, as coisas que vejo. Em qualquer lugar onde esteja, gosto de observar e anotar, desde a grande escala ao pormenor. Os detalhes interessam-me particularmente. Uma fissura provocada na parede, um puxador da porta da casa de banho, o nariz de alguém ou o gesto inesperado ou repetitivo de alguém a passar.

Quanto ao estilo, interessa-me conhecer as referências do passado, da arte, da arte aplicada, do design, do artesanato, da pré-história, da cultura vitoriana, das sombras chinesas, das marionetas indianas, de autores como Andresen, Picasso ou Matisse – mas tanto me seduz rever estas informações ou revisitar estes autores, como manter o interesse vivo por um sem número de coisas que me rodeiam.

As referências à arte e ao design, embora tenha que as conhecer, não me interessam mais do que as influências de outras áreas. Sinto com maior nitidez o entusiasmo pela arquitetura, pela música, pelas ciências como a biologia ou a zoologia. Convivo com mais gente ligada a outras áreas do que à arte ou ao design. Folheio ou escuto coisas que procuro ou às quais sou permeável. Coisas que me entusiasmam e às quais eu não teria acesso se formatasse ou limitasse a minha atenção às referências específicas.

Quanto às técnicas, recorro ao desenho para anotar. Como anoto um número de telefone ou uma morada. Faço esquissos e esboços. Desenhos de síntese e de análise. O desenho ajuda-me a pensar, a experimentar, a decidir, a compor. Uso cadernos onde faço apontamentos a esferográfica fina de tinta preta.

Na ilustração uso técnicas de recorte. Na ilustração bidimensional recorto papel kraft com bisturi. Embora comece por esquissos e o recorte seja o episódio final de trabalho, gosto de usar o bisturi com a liberdade do lápis ou da esferográfica. Não me interessa com o bisturi fazer uma “arte-final”, fazendo réplica de um esboço, mas prolongar até ao fim a razão de ser e a maneira de fazer o desenho. Prever mas correr o risco. Calcular as massas, as proporções, antever as configurações, mas desenhar com a surpresa de modificar o jogo entre cheios e vazios, pequeno ou grande, positivo ou negativo, nivelado ou acentuado.

Embora a ilustração seja um meio e no meu caso os originais passem por um processo editorial (na maquetização e na impressão) onde se escondem certas caraterísticas, interessa-me produzir essas imagens como objetos, como esculturas. No recorte, agrada-me o imediatismo e o risco. Também me interessa pelo máximo de resultados face ao mínimo de meios. E a tradução que tem que ser feita da imagem, do desenho ou da pintura convencionais para o alto-contraste do recorte. A equivalência aos valores tonais ou à perspetiva através da mudança de escalas, da contenção ou da profusão das formas.

Também recorro, no trabalho tridimensional e de maior escala, ao recorte industrial de materiais como o plástico, o vinil ou acrílico, os têxteis ou a chapa de ferro. Dou comigo a pensar menos nas questões de estilo e mais nos desafios provocados pela diversidade de materiais e processos de produção, manual e industrial, pela mudança radical de escalas, pelos constrangimentos do programa, pelos imprevistos e pela adequação.

 

Clientes importantes (duração/anos de cooperação)

Há colaborações que se prolongam, há colaborações pontuais. Há projetos que ganham proporções para além do previsto, há projetos que acarretam outros, prolongando a relação com clientes. Há clientes que se tornam amigos, consolidando uma relação de confiança mútua. Vejo a relação entre as pessoas e a amizade como uma mais-valia para os projetos. Amizade – mesmo a amizade mais pessoal – é para mim também sinónimo de exigência.

Os trabalhos mais prolongados no tempo têm estado ligados a uma empresa imobiliária, passando por todo o tipo de trabalho relacionado com campanhas publicitárias, equipamentos urbanos e acessórios logísticos. Assim como a execução de montras para uma loja de vestuário infantil e juvenil ligada a um conjunto de marcas internacionais, acompanhando os ciclos sazonais e eventos comemorativos.

Também a autoedição me envolveu numa experiência editorial que já dura uns anos. Mais recentemente, iniciei um trabalho sobre produtos gourmet, que teve uma longa incubadora, baseada numa relação entre amigos, a José Gourmet de origem portuguesa. Nada melhor do que colaborar com um amigo, nada melhor do que transformar um cliente num amigo. Neste projeto, foi a amizade que criou condições para dialogar e aferir com toda a disponibilidade, por isso com maior produtividade e consequência, as formas de atuar. Como quem fala a sério brincando, entre bons momentos ao almoço ou ao lanche, onde as ideias, as expetativas, as perspetivas ou as ansiedades têm lugar, de forma desdramatizada, sonhadora e prosaica,

Entre as colaborações pontuais ou associadas a um determinado período de tempo estão instituições como o Instituto Politécnico de Macau, o Governo de Macau, a Universidade do Porto, grupos de teatro, bibliotecas da rede nacional e algumas internacionais, revistas e jornais. Refiro-me a projetos onde a componente ilustração tem estado presente, embora não me dedique, enquanto designer, exclusivamente à ilustração.

O que tornou todos os projetos duradoiros, independentemente da sua duração temporal, foi a carga afetiva que os prolongou não só na minha lembrança mas, mais importante, na minha memória diária, quero dizer, no lastro da minha atividade, que me acompanha todos os dias somando experiências das quais não posso prescindir nem tão pouco sei hierarquizar.

Prémios/Exposições

Prémio Nacional de Ilustração em Portugal e duas menções especiais; Vários prémios em concursos internacionais de ilustração como Dodgebal, Compostela, Abadia; 3×3 USA; Seleccionado para várias exposições internacionais de ilustração como Bolonha, Brastislava, Seoul, Ilustrarte; Convidado para integrar várias publicações internacionais sobre ilustração em Portugal, Espanha, Itália, Alemanha, Argentina, Japão, México, Brasil, Estados Unidos.

Exposições individuais em Portugal, Espanha, Alemanha e Macau.

 

A sua definição de “boa ilustração“ (“Bom design“)

Uma boa ilustração? Atraente mas não embelezada pela cosmética. Atrevida mas sem recurso fácil à popularidade. Que seja agradável, mas que não procure agradar evitando a opinião ou assegurando o “politicamente correto”. Que seja segura e mordaz. E que não se ofereça “concluída” ou de fácil digestão. Pelo contrário, que solicite o observador, percetiva e intelectualmente, e que assim possa alimentar o dinamismo da observação e da interpretação, em vez de ser conivente com a preguiça. Que seja criativa, evitando recalcar os padrões estabelecidos coletiva ou individualmente. Agrada-me, seja como consumidor seja como autor, pressentir ou arquitetar “ratoeiras” ao observador/leitor.

Interessa-me verificar o poder de síntese por detrás da imagens mas também me seduz a complexidade. A complexidade estimula o observador. Também o humor e a ironia são caraterísticas que aprecio numa ilustração. Não penso no humor habitualmente associado ao cartoon mas noutros aspetos. Aspetos que podem trazer o inesperado, que podem acrescentar mais sentidos para além daqueles que se relacionam com a função imediata da ilustração. Determinado material ou uma citação trazem para cena referências capazes de aumentar o horizonte cultural do leitor ou observador. Se for ilustração de um texto – e há sempre um texto, implícito ou explícito – a ilustração não deve submeter-se-lhe. Pelo contrário, uma boa ilustração só pode desafiá-lo, estabelecer associações que enriqueçam a experiência tanto literária como visual.

Muitas vezes se confunde a ideia de adequar uma ilustração com a ideia de limitar a experiência visual, sob o pretexto de que este ou aquele consumidor não percebe isto ou aquilo. Uma boa ilustração, mesmo quando delimitada a um determinado público, a uma certa faixa etária, não deve esgotar-se, limitar-se a este objetivo. Pelo contrário, deve ampliar os horizontes culturais, trazendo algo para além do que é suposto nos seus encargos imediatos. Não podemos esquecer que a ilustração é um produto abrangente, versátil, onde, por exemplo, se podem por em convívio referências populares e referências eruditas. Onde se podem articular memórias coletivas de forma acessível com referências particulares das mais inexplicáveis. Ambas as possibilidades trazem vantagens à experiência percetiva e intelectual.

Como ilustrador e editor de livros para a infância, ilustro a pensar em crianças que gostem também de ser como os adultos, assim como penso em adultos que não prescindem da sua parte infantil. Uma boa ilustração respeita o leitor. Mas este respeito significa exatamente o contrário daquilo que vejo muitas vezes: respeitar é desafiar, é proporcionar o questionamento e potenciar o jogo criativo da interpretação.

Filosofia de trabalho

Para mim é importante o envolvimento. O meu e o dos outros, desde o cliente ao técnico ou ao utilizador. Nem consigo conceber outra forma de fazer as coisas. Por isso, todos os trabalhos em que me envolvo, sejam de minha iniciativa ou por encomenda de alguém, têm em comum uma carga afetiva que deposito neles. Quero dizer: nas pessoas, nas situações, nos objetivos e nos objetos.

O programa é muito importante, tal como é importante não me limitar a cumpri-lo de forma pacífica, quer dizer, sem trazer algo que possa ultrapassar as minhas expetativa: entre o ponto de partida e o de chegada muito deverá acontecer. E o resultado deverá conter algo que melhora a nossa vida seja em termos éticos, estéticos ou utilitários.

Se se trata de ilustrar um texto para um periódico ou para um livro, tenho que me identificar com ele. Não abdico desta relação. Nem vejo que se possa ilustrar sem ela. Neste contexto, também a relação com o autor do texto é importante. O que quero dizer é que, ao valorizar esta relação, algo de enriquecedor acontece, na minha perspetiva. Partilhar o trabalho não quer dizer misturar competências, muito pelo contrário: conhecer o escritor, os seus pontos de vista, as entrelinhas, não para submeter a ilustração ao texto mas justamente para evitar essa submissão.

Fazer as ilustrações não pode ser um ato isolado de todo o processo que resulta no objeto final, o livro. A consciência dos aspetos concetuais e dos aspetos materiais (não apenas os da imagem ou do texto mas também os do livro) são para mim importantes. E não consigo desenhar uma forma que seja, sem refletir sobre isso. Ao ilustrar penso no livro: no tamanho, no formato, na composição, nas características do suporte, etc. Estar por dentro dos processos de produção permite-me experimentar, testar, optar. Sinto uma grande vigilância do designer sobre o ilustrador. E também o contrário, uma grande influência (ou até assédio!) do ilustrador sobre o designer.

Que projecto gostaria de realizar (“projecto de sonho“)?

De forma resumida, gostava de fazer um livro como uma construção arquitetónica. Um livro como um percurso visitável, um circuito para fazer durante uma ou duas horas: Um livro-arquitetura-escultura-cenografia-jogo.

Algo mais importante a acrescentar sobre si e o seu trabalho?

Pergunto-me sobre o que será verdadeiramente importante. É difícil não me perguntar isto, assim como é difícil responder. As pequenas coisas ou as grandes? As que me deram mais prazer ou as mais arrojadas? As que me preencheram com mais satisfação ou as que me desafiaram com maiores dificuldades? Fazer design, ilustração, dar aulas, estar com a família e com os amigos, passear, conhecer… Sinto cada vez mais que situar alguma coisa é saltar para o mapa de todas aquelas que a rodeiam e que permitem localizá-la. Como o mais importante é sempre o que vem a seguir, imagino no mapa uma viagem com a família para responder a um desafio, para realizar um projeto durante algum tempo num lugar distante.

 

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