ATLAS LISBOA

Agosto — 2018

JOSE

Já sei que a marca José fazem frutos do mar enlatados. Tem mais no oferta como vinho, queijo, e mais? Se sim, o que foi o primeira coisa a empresa criou?

Os primeiros produtos foram os queijos mas poderia ter sido outra coisa, pois diversidade e qualidade não faltava à nossa volta. Nas nossas viagens, provamos variadíssimos queijos franceses, italianos, suiços, etc. E ficámos sempre com aquela sensação de que os queijos portugueses também são fantásticos. E são. Começámos então com uma coleção de quatro queijos de excelência, da Serra da Estrela, Açores, Rabaçal e Azeitão. Mas a distribuição era complicada. A manutenção do tempo de transporte e do armazenamento levou-nos a optar, depois, por produtos com um prazo de validade mais longo.

Desde que conheci o Adriano, as nossas conversas, entusiasmos e pontos de vista centravam-se na ideia das qualidades e oportunidades adormecidas (algumas em sono profundo) na realidade da produção, da comercialização e do consumo de produtos portugueses cheios de tradição e de qualidades. Andávamos a procurar, a provar, a conhecer o que de melhor se fazia em Portugal, andávamos a perceber as qualidades, hábitos de consumo, potencialidades, observando o que havia, como era feito, quem poderíamos envolver, quem beneficiaria com tais produtos, o que poderiam eles trazer de novo, etc, etc.

E isto levou-nos às conservas, que para nós já ocupavam um lugar de destaque. Na altura era um produto muito pouco valorizado e sem grande valor comercial. E as suas características indicavam que podíamos recolocá-lo num patamar muito mais acima, onde há consumidores com desejos, necessidades e exigências em tudo compatíveis com tais produtos.

Começámos há 10 anos. Hoje já há muita gente a valorizar estes produtos, quer no consumo quer na produção. O nosso projeto tem objetivos práticos e estéticos muito definidos, não nos preocupa a concorrência. Queremos fazer algo diferente, mas não por razões propriamente comerciais. Para além das nossas, vê-se hoje muito mais montras nas lojas com conservas.

Como surgiu a receita dos produtos enlatados? Quem foi a força criativa por trás do sabor? O design da embalagem foi inspirado na receita?

Precisávamos de renovar a ideia, a narrativa (ou a falta dela), os «rótulos» que estes produtos foram adquirindo e que lhes reduziram as perspetivas de consumo, de conhecimento, afastando-o daqueles contextos e momentos familiares à volta da alimentação, arredando-o daqueles hábitos sociais que no nosso entender seria obrigatório conquistar: refeições, lanches, petiscos bem acompanhados por amigos a brindarem com um bom vinho, enfim. 

O desconhecimento das qualidades era massivo, muita gente pensava que as conservas eram conseguidas à base de conservantes ou desconhecia o seu valor nutritivo, o «milagre» do ómega 3 por exemplo. Precisávamos, por isso, de promover uma outra motivação, de criar uma outra história à volta do produto.

Tínhamos até inspiração suficiente em casa. Ambos, eu e o Adriano, tínhamos filhos pequenos e sempre nos preocupava o interesse que eles mostravam pelos «hamburguers», pelas comidas rápidas. Nós apreciávamos o sabor, a qualidade e a variedade das conservas, sardinhas, cavalas, polvos, atum, petingas, lulas, ovas, etc. Tudo, tudo, com sabor divinal mas pouco sedutor para os mais novos. Pareceu-nos então que não bastava seduzir os adultos mas também investir nas crianças, favorecendo o convívio familiar.

Aproveitámos o facto de os mais novos gostarem de imitar, de acompanhar os mais velhos no desafio da cozinha, de impressionar os amigos com as suas proezas, e propusemos um conjunto de receitas criadas pelo chefe Luís Baena. Como não bastava o conteúdo gastronómico em si mesmo o escritor Eugénio Roda, para desenvolver umas histórias curtíssimas a partir dos ingredientes e da sua combinação nas receitas. Histórias que dessem a saborear o «conteúdo» visual, literário e gastronómico de cada lata.

Saborear a ilustração, saborear o texto, saborear o produto num contexto diferente, onde adultos e crianças pudessem partilhar imaginação, criatividade, memórias, novidades, etc. Interessava-nos oferecer uma embalagem convidativa, mas não com a intenção de inflacionar esteticamente ou de dar uma ideia do produto superior ao que ele é, pois o produto não precisa disso, vale por si mesmo. Pelo contrário, pretendíamos colocar a embalagem ao nível qualitativo do produto, abrir o apetite não só para a comida propriamente dita, mas também para aquilo que carateriza um ser humano, a procura do significado para além das necessidades básicas, entre as quais, a alimentação.

Eu suponho que você foi o primeiro a projetar a embalagem. Qual foi o primeiro design aprovado?

Na altura, a tendência, o mais fácil, seria redesenhar ou aproveitar o desenho de embalagens dos anos quarenta, por exemplo, e lançar assim o produto envolto num imaginário revivalista. Ainda que isso pudesse ter algum interesse para o público, ainda que essa atitude pudesse beneficiar comercialmente o produto no imediato, não me interessava reforçar apenas um património imaterial já adquirido. Nunca me seduziu viver de forma preguiçosa, viver dos frutos já cultivados e colhidos, reviver o passado. Não me interessava reviver a história mas fazer um episódio da história completamente novo.

E não se tratava de inovar por inovar mas, também aqui, de aproveitar a oportunidade para atualizar os meios, os resultados, os efeitos. Criar novos pontos de interesse, novas focagens, envolver novos atores, novas ideias, novas imagens, novos significados. Desde o início, tanto para mim como para o Adriano, a oportunidade de tudo isto, aquela em que estávamos interessados, era a de lançar novos hábitos e novos desafios, lançar novos desafios à concorrência, dar um salto qualitativo para a frente, algo de que nos pudéssemos orgulhar mais tarde.   

Sem pretensiosismo mas com convicção, desde logo sabíamos que a melhor homenagem à excelência dos produtos também seria investir numa estratégia nova. Um novo produto com memória e contemporaneidade. Um projeto onde as ideias fundamentais de escolha, seleção, identidade, qualidade, diferença, exigência, singularidade, espelhassem estes mesmos valores na atitude de quem compra, de quem procura estes produtos com bom gosto no palato e na vista, sem prescindir da qualidade de todos os aspetos envolvidos, quer na qualidade das matérias-primas quer na qualidade da comunicação visual.

Como e que um ilustrador se tornou acionista de uma marca das conservas?

Nunca fui um ilustrador resumido à ilustração, nunca fui um designer limitado ao design de comunicação, nunca fui um professor a quem bastasse dar as aulas. Embora faça coisas muito diferentes, a maneira de as entender, de as fazer, de as articular aproxima-as muito. A vida manifesta-se em diversidade mas é só uma. E só precisa de meia dúzia de coisas fortes para funcionar em pleno, como desafio, oportunidade, trabalho, disciplina, entusiasmo, amizade.

Este projeto partiu de uma amizade, a mesma amizade que continua a alimentá-lo. Nunca quis receber nada pelo meu trabalho, tratou-se sempre de um desafio entre dois amigos. E, tal como eu, o meu amigo Adriano nunca retirou qualquer lucro do que a empresa foi conseguindo juntar financeiramente. O sucesso alcançado foi sempre investido no seu próprio crescimento. E este crescimento tanto envolve o aumento de possibilidades empreendedoras como a valorização de quem trabalha na produção, de quem cuida da matéria-prima ou trata de confecionar com ela os produtos comercializados, numa perspetiva de mercado justo e de valorização de todos.

Eu entendo que trabalha com ilustradores (de todo o mundo? de Portugal?) para criar a arte para as pacotes. Como os escolhe?

A maior parte dos ilustradores convidados são portugueses. São também amigos ou estudantes cuja qualidade seja, para mim, inquestionável. Só trabalho com pessoas de quem gosto, em quem acredito, pessoas que estimo. Só trabalho com pessoas que me parecem ter qualidades para desenvolver os projetos em que as envolvo. Podem ser muito jovens ou muito experientes, o que me importa é a exigência com que trabalhamos. As regras de relacionamento são o mais importante e baseiam-se sempre na qualidade e no bom entendimento entre pessoas.

Desde o início do projeto, a estratégia passava pela escolha de ilustradores. Nessa altura, escolhi doze ilustradores para a infância dos mais conhecidos nos últimos anos. Ilustradores que têm tratado dos sonhos de crianças que entretanto cresceram e até já têm filhos. Uma vez decidido o design das embalagens, depois de estudados todos os aspetos de produção, adequação e organização gráfica, tipográfica e material, a maqueta foi disponibilizada aos ilustradores com alguns dados e cuidados a ter em conta para o resultado pretendido. Consoante o tipo de produtos e respetivo público, a estratégia foi tendo várias nuances e particularidades.

Depois desta primeira paleta de doze ilustradores, fui envolvendo autores com gramáticas diversificadas, consoante me pareceu que poderiam ir de encontro a certos objetos, a certos públicos. Envolvi também autores mais jovens, com determinadas especificidades nos materiais, na linguagem, procurando, por um lado, proporcionar aos ilustradores uma primeira experiência no mercado de trabalho e, por outro lado, ir ao encontro de novas sensibilidades entre nichos de clientes. Como num museu ou numa galeria de arte, interessava-me sugerir esta aspeto de coleção em que cada imagem, ainda que pertencente a uma série, é única e assinada por alguém. Podem ver as nossas exposições coletivas nas lojas que representam os produtos Josegourmet. Com a vantagem de abrir o apetite para mais e matar o desejo de provar algo surpreendente e único.

Eles dizem que não deve misturar negócios com prazer, mas o senhor está misturar comida com arte. É uma mistura perfeita?

Cada vez acredito mais no contrário. Bem, se o prazer e o trabalho forem divorciados, então será melhor não os misturar, pois dar-se-ão mal! Eu sou casado. E o meu trabalho também é casado com o prazer. Não faço nada que não me dê prazer fazer. Se conseguirmos viver com o que nos dá prazer estamos mais perto de ser felizes e de tornar felizes os que estão por perto.

Acho que misturar o trabalho com o prazer e o prazer com o trabalho tem que ser algo natural. Mas para ser natural tem que ser disciplinado. E não pode ser apenas o prazer pelo prazer, claro, aqui voltávamos ao divórcio. Falo do prazer na responsabilidade, na experiência, na descoberta, no risco. O prazer de um bom resultado mas também o prazer da barriga a doer. O prazer de ter muito tempo mas também o prazer na falta de tempo. Penso no prazer imediato e no prazer a longo prazo! O prazer com uma imagem, um material, um desenho, uma forma, uma textura, um problema, uma ideia, uma conversa, uma pessoa, um lugar, uma experiência, uma cor, um minuto… é este o alfabeto do meu trabalho.

Em que outros projetos de design você está trabalhando? Onde podemos ver mais do seu trabalho?

Eu não faço só uma coisa de cada vez. Há pouco tempo acabei um projeto que também foi começado entre amigos, uns que já conhecia, outros que passei a conhecer. Com o Nuno Ferrand, o Jorge Wagensberg e o Hernán Crespo tive o prazer de desenvolver a Galeria da Biodiversidade do Museu de História Natural da Universidade do Porto. Foi um projeto que levou quase quatro anos de trabalho de investigação, de conceção, produção e montagem de dispositivos de mediação com o público. Quatro anos muito gratificantes de trabalho com uma equipa grande e muito diversificada, de convívio, de conversa, de reuniões, de desafios, de ensaios, de testes, etc. Já foi inaugurada há mais de um ano mas o assunto ainda está fresco na minha cabeça porque vou recebendo feedback de pessoas que vêm ao Porto visitá-la. E também porque ainda há pouco tempo lhe foi atribuído o prémio de melhor trabalho de museografia, o que nos aumentou a satisfação.

Neste momento estou muito empenhado com o próximo livro da parceria Gémeo Luís – Eugénio Roda. É um projeto relacionado com o Lobo e a sua importância no ecossistema. É um trabalho que pretende dar um contributo para alargar os espaços percetivo e criativo, que ainda batem muito na tecla do Lobo Mau! A par do estudo e discurso científico, mas sem misturar o papel de cada um, interessa-me trabalhar artisticamente sim, mas no diálogo com a ciência e a técnica, para mergulhar na vida que todos os temas envolvem.Nos livros, tal como nos outros projetos, interessa-me alargar a perceção que temos das coisas, renovar pontos de vista, potenciar novos efeitos, aumentar a qualidade estética e beneficiar o nível ético do espaço que socialmente partilhamos.

Onde você vai se inspirar? Você tem um café favorito para ir para esboçar, por exemplo?

Gosto de café, gosto de estar no café mas o café não me inspira mais do que outras coisas ou outros lugares. Duas filhas, um filho e uma namorada com que sou casado, contribuem de forma inesgotável para a minha inspiração. Pais, irmãos e sobrinhos juntam-se num clã que para mim é inspirador. Tenho também um grupo restrito de amigos com diferentes sensibilidades e formações, com quem convivo pessoal e mesmo profissionalmente. Junto, num anel mais alargado, e em pontos os autores de referência universal e os menos evidentes, os falhados e até os maldosos, os «crápulas».

Todas estas pessoas estão, de modo diferente e por razões distintas, no centro da minha inspiração. Também as pessoas com quem vou trabalhando, os técnicos que envolvo na produção das coisas, os conhecimentos que absorvo tornam-se profundamente inspiradores. Não sou de me isolar, gosto de agregar pessoas em meu redor. Nem preciso de parar o que acontece à minha volta para me concentrar mais ou menos naquilo que faço. Pelo contrário, gosto de rapidez, variedade, perguntas, intromissões, influências, discussão de pontos de vista. Entre amigos, com a família, com os clientes, com as pessoas com quem gosto de trabalhar. Saber o que quero em cada momento permite-me estar disponível para ser influenciado e inspirado por pessoas, momentos, lugares.

Qualquer sítio é bom para uma anotação, para um esboço, para uma conversa, para uma pergunta, para uma visita, etc. As minhas áreas de interesse são tantas, arquitetura, música, dança, desporto… que dou comigo a vasculhar o percurso das pessoas que vou admirando. Aqueles com quem fui tendo a oportunidade de conviver e com quem fui desenhando o meu círculo mais apertado de amigos constituem um habitat de qualidades humanas e artísticas, de visão e atualização, de criatividade e contemporaniedade, um habitat inspirador de exigência diária.

 

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